Dulce Ramos |
Rosana Hermann |
"Hoje é um dia inesquecível"

Tenho o péssimo hábito de não colocar a data em nada. Mas esta data eu quero registrar,
26 de outubro de 2000, porque vou usar este texto para perpetuar um momento que ficará impresso em mim por toda a vida, mas que de tão vivo, encheu algumas centenas de pessoas de sementes de humildade,prontas para serem semeadas a partir de agora .
Quando eu entrei na Rede Mulher, no final de 1995, conheci Dulce Ramos. Eu era diretora artística da emissora, que na época pertencia à família Montoro, cuja sede era em Araraquara, e Dulce foi mostrar o seu trabalho para mim.
Eram cartões tridimencionais, lindos e delicados, extremamente bem feitos, montados por presos do Carandiru. O projeto chamava-se "Um sonho de liberdade" e a cada três dias trabalhados, um dia de pena era abatido. Fizemos uma reportagem no presídio do Carandiru e aprendemos muita coisa, como por exemplo, que não se pode entrar no presídio de calça bege, pois esta é a cor dos uniformes dos presos. A equipe e a produtora, Raquel Zimermam, voltaram energizadas com a experiência de gravar o trabalho dos presos de Dulce para a Ramblas. No Dia Internacional da Mulher, 8 de março, decidi que os cartões da Rede Mulher, seriam feitos por Dulce. Escrevi um texto especial, que até hoje está no ar na Internet, graças à gentileza de Dulce. O cartão continha uma flor em três dimensões e o seu texto dizia: '' Aceite esta flor montada por detentos, como símbolo da liberdade, do amor e da compreensão, talvez os maiores dons de uma verdadeira mulher".
Homenagem da Rede Mulher de Televisão às mulheres de todo o mundo. Desde então, encampei a causa da Dulce.
Até meu marido chegou a visitar o presídio como psiquiatra para oferecer trabalho voluntário. Quando entrei na NewComm, surgiu uma concorrência muita importante, e como precisávamos de um convite para o projeto, lembrei-me do trabalho da Ramblas. Dulce então, voltou à minha vida, apresentei-a aos meus colegas, que ficaram igualmente entusiasmados com seu trabalho, pela qualidade e pelo significado social. Algum tempo depois, soube que ela fora selecionada a concorrer ao Premio Claudia, e quando vi sua foto estampada no caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, tive um bom pressentimento. Na noite do Prêmio, os apresentadores Glória Maria e Rondino, anunciaram que mostrariam o vídeo com as 15 mulheres concorrentes e, eu não imaginava a emoção que seria ver o trabalho dessas mulheres. Chorei desde o início, porque a gente não imagina quanta gente boa tem nesse país, fazendo trabalhos humanos.
Após as 15 selecionadas, seriam apresentadas as 5 finalistas. Começou com Nazaré Imbiriba, uma mulher que cuida de 110 comunidades pobres do Pará ao Amapá, no projeto Poema Pobreza e Meio ambiente do Pará. Uma mulher baixinha mas muito forte, que diz que não dá pra ter discurso ecológico onde há fome. A simplicidade e emoção de Candelária, a segunda selecionada fizeram todo o público chorar, que tremendo, recebeu o prêmio das mãos de Marília Pêra. Ex-menina de rua, ex-prostituta, hoje apóia as prostitutas de Aracajú, distribuindo camisinhas, ensinando essas mulheres a se prevenirem de doenças. Um trabalho inquestionável que fez com que essa mulher fosse aplaudida de pé, por todo o público. Veio então a minha grande emoção. Quando o vídeo mostrou as grades, eu sabia. Era Dulce. Chorei, aplaudi, gritei seu nome. Ela então subiu ao palco, leu seu discurso que relembrou o massacre do Carandiru, quando 111 homens foram executados covardemente. Foi um discurso muito profundo e para completar uma surpresa. Na lista de agradecimentos, falou meu nome.
Foi um prêmio para mim. Meu coração foi tomado de uma alegria por ela, que me fez correr para abraça-la, assim que ela desceu do palco para seu lugar. Veio então Lisaura Ruas, que há 30 anos trabalha em Niterói reabilitando deficientes. Teve também as cientistas, bolsistas da Fapesp, que decifraram o código completo da Bactéria Xyllela Fastidiosa, que ataca os laranjais. Foi lindo e emocionante ver todas essas mulheres recebendo prêmios por seus trabalhos tão signicativos. A orquestra ao vivo, tocou uma música de Caetano, para que preparássemos o espírito para a grande finalista da noite. E Célia Pardi anunciou que a Mulher do Ano era ... Dulce Ramos! Não sei se eram 2,3 mil pessoas em pé, aplaudindo Dulce, e como eu, chorando emocionadas. Quando ela subiu ao palco, mal podia falar, mas dedicou o prêmio a todos àqueles que tem coragem de ver que somos todos humanos. E chamou ao palco, dois ex-presidiários. Um deles cumpriu 5 anos de pena, e há 10 é soropositivo, e trabalha com ela desde o início de seu projeto. Vendo aquele homem chorando, soube que íamos ganhar. Senti que todos esses homens podres, como Cacciolas, Lalaus, os ambiciosos e corruptos como Viscomes, Vitas e Pittas, que só pensam em si, no dinheiro, no poder, que produzem miséria com seus roubos; os mentirosos que vendem a alma para aliciar a ignorância, que acham que prostitutas não são seres humanos, que presidiários não são seres humanos, que homossexuais não são seres humanos, e se esquecem que eles não serão para sempre. Reuni coragem para acreditar que é só uma questão de tempo e que vamos sim criar um mundo mais justo, especialmente com as mulheres tomando as rédeas de muitas atividades ligadas ao poder. Senti orgulho de ser mulher, de abraçar aquela ex-prostituta de Sergipe e chorar com ela; de abraçar Dulce no saguão, no meio de todas as luzes das câmaras, de abraçar sua filha, seus funcionários.
Saí de lá com os olhos borrados e alma renovada. E vou pedir a Deus que ilumine a todos os seres deste planeta, para que voltem a sentir a presença divina em seus espíritos, para que um vento lhes devolva a capacidade da compaixão e para que uma vez iluminados, olhem ao redor e vejam que somos todos seres humanos. Igualdade, fraternidade, liberdade. Esses são os ideais da revolução francesa. Esses devem ser os lemas de uma revolução sem armas, mas com muita coragem e humanismo, uma revolução derrubar, para sempre, os poderes dos homens vis. E pelo que senti, essa revolução já começou com mulheres de fibra, como as que vi esta noite. Mulheres capazes de amar.
Rosana Hermann é jornalista, e do site farofa.com.br